entrefatos

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esses dias eu conversava com uma amiga de recife radicada no rio sobre minha experiência outsider em são paulo. dizia a ela que, para não enfrentar o arsenal preconceituoso do paulistano médio, achei mais prático tornar público apenas meu lado cosmopolita e integrado com a dinâmica social da cidade.

na prática, esse lado se processa na forma de enquadramento corporativo e se traduz em uma sensibilidade que enxerga as dificuldades enfrentadas por quem vive aqui. essas dificuldades, que passam pelo problema do trânsito, da violência urbana e chegam à falta de uma identidade cultural genuinamente paulistana (sorrateiramente mascarada pelo mito do “tipicamente paulistano”), de certo modo humanizam expectativas e servem pra dar uma noção realista de como sobreviver em um lugar assim.

mas a questão não é essa, até porque bastam algumas viagens preliminares antes da mudança efetiva para que essas falsas ilusões sejam desconstruídas. o problema é que, para não ficar estigmatizado ou ser julgado superficialmente por mentes que não têm tempo, interesse e capacidade intelectual de ir além, você tem de abrir mão de traços, trejeitos, manias, preferências e ideologias se quiser ser reconhecido por um trabalho que requer esse tipo de flexibilidade moral para ser exercido sem incômodo.

a mim fica claro que eu escolhi esse caminho. poderia ter optado pela defesa diária e contínua de uma autenticidade que precisa fincar a bandeira de suas origens em novos terrenos a medida que eles são visitados, mas não. como toda boa sociedade de aparências movida a informação rápida e atropelada, é mais fácil obter respeito pelo que você parece ser do que pelo que você é de verdade. nesse cenário, ferramentas como o twitter e as redes sociais são ótimas vitrines quando alimentadas de acordo com o filtro do interesse médio.

por outro lado, a mídia tradicional e suas putinhas não colaboram. com sua influência, o máximo que elas conseguem fazer é criar referências frágeis e culturalmente limitadas para esquentar o miojo da desinformação consumido vorazmente por uma massa que confunde informação com conhecimento. se é triste de ler, imagina como é constatar na prática.

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a maré baixa e logo bate a vontade de correr na areia, sem ligar para eventuais pedras, conchas pontudas ou cacos de vidro. lembro de um carnaval que eu fui para a praia com a família e meu irmão pisou num caco de vidro. curiosamente, eu filmei tudo. talvez por tédio, já que não sei muito o que fazer na praia além de caminhar, ler, tomar açaí e beber. foi engraçado. ele saiu da água correndo de forma desengonçada, dizendo que tinha pisado num caco de vidro. eu corri atrás dele com a câmera e narrei o momento como se fosse o datena. lembro que ele chegou na barraca desesperado e, com o drama que lhe é peculiar, pediu pra alguém estancar o sangue. minha mãe ficou atônita e seguiu a dica da moça da barraca do lado, que sugeriu lavar o ferimento com cachaça. estávamos em morro branco, praia do litoral oeste do ceará onde, dizem, acontece o maior carnaval dali. fica no distrito de uma cidade bem pequena e o hospital mais próximo estava a uns 10km. em situações como essa, envolvendo um dos filhos, minha mãe fica meio perdida. o protecionismo anula a sensatez. depois de lavado com ypióca prata, o pé do meu irmão foi graciosamente envolvido por uma camisa qualquer e nós seguimos para o hospital. ele deve ter levado uns oito pontos. essa historinha é pra dizer que hoje eu me sinto mais ou menos como meu irmão, com a diferença de já ter pisado em outros cacos de vidro durante caminhadas despretensiosas à beira-mar. como nunca aprendo, basta a ferida cicatrizar pra eu querer fazer tudo de novo.

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do habitual uso de “palavras difíceis” ao desinteresse por programas socialmente sem sentido, estava na cara que eu não me adaptaria. me conhecendo como eu me conheço, não era difícil imaginar que uma hora eu cansaria de me sentir deslocado. a verdade é que tudo foi uma grande tentativa. de enxergar relacionamentos de outra forma, de ser conivente com uma dinâmica social diferente da qual eu estava acostumado, de ignorar diferenças em prol de algo maior, de valorizar o esforço. foi assim que eu decidi interromper todo o processo e dar voz a razão, que usou uma retórica simples e contundente para mostrar que eu não compactuo com certos hábitos. ao contrário do que se pensa, eu não espero grande coisa de são paulo. nesse pouco tempo aqui, inclusive, percebi que as migrações do interior do estado para a capital são muito mais cercadas de deslumbramento que aquelas vindas de outros estados. o que se espera de uma cidade como essa, e de qualquer outra grande cidade, são condições mínimas de sobrevivência com alguma chance de sucesso profissional. no meu caso, estar aqui não é uma simples questão de escolha. quando decidi seguir a carreira de publicitário, tinha a perfeita noção de que se quisesse ascender profissionalmente teria de migrar para um centro econômico maior e comercialmente mais desenvolvido. o que uns chamam de deslumbre, eu chamo de visão de mercado. o que uns chamam de mudança de cidade, eu chamo de decisão estratégica. quando tornei pública minha insatisfação com a cidade, não esperava que houvesse uma defesa tão pessoal de alguém cuja maior referência de vida está do lado de fora do país. alguém para quem toda e qualquer conversa pode ser enxertada com pílulas de bagagem cultural externa para calar bocas de uma maioria que sequer tirou o passaporte. se são paulo não é para principiantes, como gracejou um amigo em comum, o brasil tampouco. e experiência nacional não costuma ser o forte de quem optou pela facilidade de “crescer” viajando pelo mundo enquanto o bicho pegava aqui. não fiquei decepcionado porque não esperava opinião diferente. o que chamou atenção foi isso ter vindo a público, numa clara demonstração de enfrentamento de quem já não tinha nada a perder. talvez por isso eu tenha tomado a decisão que tomei, sem ao menos formalizar tête-à-tête. quem não tem nada a perder já abriu mão, logo, não há mais o que preservar. devo admitir que o alívio foi tão grande como da primeira vez, e que essa sensação não pode significar outra coisa senão o fato de que era pra ter sido assim. o tiozinho aqui espera muito mais de uma mulher. eu diria que hoje, antes de qualquer coisa, humildade. mas não essa humildade relativa de reconhecer erros grotescos facilmente evitáveis com perícia e maturidade. falo daquela humildade de outrora, aquela em que se admite fraquezas e o desejo de ser uma pessoa melhor é um incômodo íntimo. incômodo a ponto de se ter visão crítica sobre como e o que fazer para melhorar. porque abraçar o mundo e querer agradar a todos é filantropia, não luta íntima. também espero mais fibra e menos “moral de cristal”, do tipo que se ofende com qualquer coisa. ofensa é ultraje. denigre a imagem e, quando mais forte, causa dano moral. ofender-se com pouco é de uma intocabilidade surreal (intocabilidade essa que foi deixada de lado na fatídica noite dos tapas). infelizmente minha veia romântica não segue a estética da escola literária. meu romantismo se pauta em valores contemporâneos dificilmente assimilados por quem acredita em conto de fadas. porque amor, como diz a joice viana, é peito, bunda, buceta e pau. é conta pra pagar, mercado pra fazer e bafo matinal.

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extraí, de uma conversa despretensiosa com um velho amigo, algumas conclusões importantes que ajudam a balizar conflitos recentes.

antes de mudar pra são paulo eu não discutia minhas relações. é que, de modo geral, não existe dr no nordeste. o que existe é uma troca de desaforos acumulados ao longo do tempo. não se discute o dia-a-dia, porque estar junto denota a existência de um pacto indissolúvel. lá as drs são definitivas porque deflagram o desgaste natural dos relacionamentos e, sabendo disso, as partes envolvidas fazem o possível para evitá-las. a construção do entendimento é feita na base de provocações sutis e não de uma formalidade para este fim. desse modo eu penso que lá existe mais tolerância, tanto no respeito as diferenças por um motivo maior - a relação -, quanto na compreensão de que a qualquer momento as insatisfações de alguém podem vir à tona, todas de uma vez. na minha concepção, essa forma cumulativa de lidar com os problemas garante maior longevidade da vida a dois e evita aquilo que parece construtivo mas é extremamente desgastante.

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um novo ciclo de convivência e as diferenças, inicialmente vistas como culturais, transformaram-se em uma queda de braço ideológica fadada ao fracasso. de um lado, a retórica extremista do maniqueísmo jornalístico que leva tudo a sério. do outro, a artilharia autodefensiva de um individualismo romântico. juntos, um embate sistemático entre visões de mundo diferentes à procura de afinidade, umazinha que fosse. o erro? difícil cravar. falta de um “consenso racional”, talvez. a busca por uma explicação satisfatória esbarra na imprecisão de um conjunto de fatores, dentre eles o implacável desmanche sentimental do primeiro término. necessária, a tentativa de reconciliação se tornou um esforço supra-traumático de relevar o desgaste para tentar encaixar as peças do jogo. não deu e eu sinto muito. por mim, por você e pelo que passou. a você, o desejo de que inventem uma máquina do tempo acionada por um clique. quanto a mim, o que resta é a incerteza do que virá e o já tradicional isolamento, a quem eu costumo recorrer quando nada me conforta.

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cresci me questionando sobre o papel de cada indivíduo na sociedade. tentando, fracassadamente, traçar paralelos entre relações de natureza diferente e equidistantes como as humanas e animais. exigia da moral coletiva uma explicação lógica para o desarranjo de tudo. gráficos, estatísticas, estudos de caso, dados comparativos. na busca por esse entendimento, pensar de forma cartesiana me ajudava a formar opinião sobre as coisas. para a superpopulação, controle de natalidade. para o déficit educacional, construção de escolas e abertura progressiva de vagas no ensino superior. para a estabilidade da moeda, câmbio flutuante. e por aí vai. construir o pensamento pelo viés matemático me ajudou numa fase em que eu precisava separar o certo do grosseiro. aliado a isso, desenvolver o gosto por áreas como sociologia e geopolítica me fez ver a vida como a imersão antropológica definitiva. hoje eu já não exijo tanto. minhas expectativas sobre os indivíduos diminuem a cada dia que passa, porque meu interesse em entendê-los deixou de ser uma prioridade. na era da necessidade de exposição, assisti-los é mais cômodo. é andar por aí e vê-los como vitrines de si mesmos, decoradas para datas específicas com descontos duvidosamente tentadores.

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cheguei num estágio em que toda forma de agradecimento pelo que vivi na adolescência é válida. foi graças a intensidade das experiências daquela fase que hoje eu olho pra frente e enxergo com mais clareza o que realmente quero da vida. os anos passam e minhas convicções só aumentam. digo isso porque é com leveza que hoje eu sei a hora certa de interferir no roteiro que se constrói diante dos meus olhos. uma narrativa incoerente julgada por uma moral flexível que aprendeu com erros, diferenças, despropósitos e que, não fosse o sangue frio, não suportaria tamanho desatino. virei adulto como quem mata a bola no peito e diz “essa é minha”, porque eu me preparei pra isso. enfrentei desafios, assumi riscos, peguei atalhos e fui de um extremo a outro de uma mesma linha de raciocínio, sem saber que aquela era apenas uma parte de um emaranhado de cabos condutores de dados conflitantes. hoje eu sou cada vez mais parecido com aquele aluno esforçado que se orgulhava em ostentar medalhas por bom desempenho escolar e cartuchos zerados, mas que sabia que só isso não bastava e um dia acordou. hoje eu sou o moleque que peitou a mãe, contestou doutrinas que pareciam hegemônicas, aprendeu a se virar, quis entender a complexidade cultural do seu país, experimentou dissabores, decidiu que ninguém regularia seus horários e usou tudo isso a seu favor. desculpa, mas hoje, só hoje, eu precisava comemorar.

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o melhor presente de dia dos namorados que eu poderia ter dado a mim mesmo foi uma corrida de táxi. aquela altura, meia-noite e pouco, já não havia mais dúvida de que voltar pra casa era o melhor a ser feito em meio a tanto drama. sair pra ter uma conversa a dois foi mais uma daquelas decisões tomadas em cima da hora com uma ponta de esperança de que um fato novo pudesse mudar o rumo dos acontecimentos. entretanto, o fato novo e previsível da noite só serviu pra reiterar o propósito de seguir em frente sem olhar pra trás. perder a admiração e o respeito por alguém que não se deu a tal minou o afeto que restava e me fez ver, mais uma vez, que decepcionar-se é parte indissociável do conjunto de expectativas que cercam as relações humanas. o pior, pra não dizer o mais triste, é que com um pouco de reflexão isso poderia ter sido evitado, o que me leva a crer que não bastasse a desordem emocional, também pesou a falta de cuidado e sensibilidade pra entender os próprios sentimentos. tardia, a autoanálise que gerou um comprido e bem articulado e-mail acabou servindo apenas de desencargo de consciência. eu lamento, honestamente. lamento que uma capacidade tão grande de compreensão do que paira em volta seja relegada a um plano secundário, como se fosse preciso fazer concessões para usá-la. lamento que uma luta tão bonita pela liberdade das mulheres tenha sido esquecida num momento de fraqueza, fazendo dela uma pessoa comum, sem amor-próprio e distante dos seus ideais. lamento pela perda da credibilidade e confiança, que me mostraram que querer não é suficiente pra relevar.

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exercício difícil, esse de fazer o coração entender diferenças culturais. difícil até mesmo do cérebro compreender. primeiro porque a objetividade no início da relação pula várias etapas. o que é bom, pois evita desperdício de energia e foca nas necessidades comuns. depois porque, embora pular etapas acelere o processo, a vida não reduz a marcha pros pontos se ligarem. pelo contrário. segue seu curso e, cada vez menores, as pausas pra respirar acabam sendo preenchidas por outras atividades. acumula-se desconhecimento e sobram ritos cotidianos de amparo mútuo. não há brecha que resgate a chance perdida porque as expectativas mudam com o passar do tempo. quatro meses depois, espera-se que a história de vida que construiu a visão de mundo de cada um esteja mais do que clara e, se não estiver, que ainda haja interesse e abertura para conhecê-la. o amor é uma intersecção cultural. opostos podem até se atrair, mas isso não garante que se amarão. se o tempo passa e as diferenças só aumentam, algo deu errado lá no início e só há uma forma de consertar isso.

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ele se via em mim e eu me projetava nele. dois forasteiros destemidos, corajosos, com a faca entre os dentes. dois profissionais dedicados, esforçados, disciplinados. desconhecidos que viraram colegas e se tornaram amigos sem ter a real dimensão disso. um seguindo os passos do outro que parou e deu meia-volta, como quem deixa a caneta cair e só percebe alguns passos a frente. em comum, a paciência acumulada que transborda e vira ansiedade. ânsia por viver. viver para sentir, sentir para realizar. dois empreendimentos ambulantes, planejamento e execução. solúveis e sem amarras, um interfere no andamento do outro. caneta apanhada, vamos em frente.