“A retomada da economia será pelo agronegócio” diz economista-chefe da TCP.

As oportunidades do agronegócio brasileiro aumentar o seu protagonismo global passa por mudanças estruturais, de gestão, de profissionalização e de implementação de controles, notadamente os financeiros. A nova geração que já implementa o agronegócio digital chega com uma visão diferente dos pioneiros que colocaram o Brasil no radar dentre os maiores produtores de alimentos do mundo.

Estes conceitos são compartilhados e defendidos por Ricardo Jacomassi. “Esta é a vocação não apenas das cadeias produtivas mas da própria economia nacional”, afirma.

Dentre os maiores setores da economia brasileira, o agronegócio lidera e tem como ampliar ainda mais a sua privilegiada posição. Integram este bloco de atividades os setores da construção, automotivo, mineração, bebidas e alimentos, atacado e varejo, transportes, TI & Telecom, educação, saúde e turismo.

Mas a liquidez atinge duramente algumas cadeias produtivas como a da cana-de-açúcar, atingida pela baixa do preço do barril de petróleo e os efeitos da Covid-19. A cadeia de flores, que emprega direta e indiretamente cerca de 800 mil trabalhadores; o algodão que será afetado pela diminuição do mercado de tecidos; o leite que afeta as atividades dos pequenos produtores; o mercado de hortifrutigranjeiros, atingido por problemas de logística criados pelos governadores, são setores que sentirão os efeitos da crise e terão que se reajustar para sobreviverem.

Ricardo Jacomassi vê o dólar com tendência de alta em razão da sua forte dependência externa. “Dólar alto significa maior renda para os produtores das cadeias produtivas exportadoras. Alguns fatores podem impulsionar aumento do dólar, como as eleições nos EUA e os efeitos do Covid-19 naquele país. A queda no PIB dos países da UE e da própria China também trarão impacto no càmbio.

O economista-chefe da TCP Partners acredita que a inflação continuará baixa nos próximos 18 meses. “Há procura de fundos de investimentos interessados em participarem deste ‘boom’ de oportunidades que se abrem para o agronegócio brasileiro e cabe ao governo não deixar faltar liquidez ao setor e trabalhar para a criação de um clima de segurança que interessa a todos”, explica.

O Estudo

De acordo com estudo realizado pela TCP Partners, o agronegócio será fundamental para a recuperação da economia pós Covid-1. O levantamento mostra que o café, a soja e o milho apresentarão o maior crescimento de receita com 26%, 14% e 13,5%, respectivamente. O favorecimento dessas culturas se dará graças a recuperação da bianualidade da safra do café, a desvalorização do real frente ao dólar, no caso da soja, e pelo fato do milho ser importante na cadeia alimentar e usado na produção de ração animal.

Já no setor industrial, as empresas de fertilizantes e defensivos agrícolas deverão manter-se resilientes, pois são itens indispensáveis para a produção. A firme demanda por proteínas (bovinas, suínas e de aves), principalmente, pelo mercado internacional será positiva para o segmento de nutrição animal, apesar do aumento dos preços dos insumos.

O setor de medicamentos veterinários sofrerá impactos nas exportações, mas deverá seguir ?rme com aquisições para garantir e?ciência da produção para abastecer o mercado interno.

A TCP Partners também avaliou o setor de comércio e serviços e observou que o transporte de carga será favorecido pelo segmento de grãos que deverá apresentar safra recorde. Já no segmento relacionado à pecuária que abastece o mercado doméstico deverá ter sua atividade impactada devido à redução do consumo interno.

Os atacadistas e varejistas de peças agrícolas deverão ter um ano de crescimento das vendas devido a aversão de compra de máquinas novas (tratores, colheitadeiras e pulverizadores motorizados) pelos produtores que deverão preservar caixa. Já os produtores que decidirem pela manutenção da frota atual, precisaram repor peças para manutenção.

Considerações sobre a análise do Estudo:

Metodologia:

Utilizou o conceito clássico de análise econômica setorial que é composto pelos setores: ? Primário: produtores de grãos, pecuaristas, cultivo ?orestal etc; ? Secundário (indústria): fabricantes de insumos, processadoras de grãos e demais agroindústrias etc; ? Terciário (comércio e serviços): transportadoras de grãos e de proteínas, distribuidores e varejistas de insumos agrícolas, agentes ?nanceiros etc.

Aplicou inferência para os subsetores com base nas informações: ? Empresas de capital aberto; ? Empresas clientes de capital fechado; ? Valor Bruto da Produção Agrícolas

? O VBP mostra o desempenho das lavouras e da pecuária e corresponde ao faturamento bruto dentro do estabelecimento. Calculado com base na produção da safra agrícola e da pecuária, e nos preços recebidos pelos produtores nas principais praças do país, dos 26 maiores produtos agropecuários do Brasil. O valor real da produção, descontada a in?ação, é obtido pelo Índice Geral de Preços – Disponibilidade Interna (IGP-DI) da Fundação Getúlio Vargas. A periodicidade é mensal com atualização e divulgação até o dia 15 de cada mês.

? Atualizado em 02/2020 – Ministério da Agricultura.

Highlights dos subsetores primários

Café: é esperado o crescimento da receita dos produtores de café de 25,7% em relação à receita de 2019, favorecido pela recuperação da bianualidade da safra, preços internacionais e consumo doméstico resiliente.
Soja: a receita dos produtores de soja crescerá 14,3% em relação à 2019, resultado do aumento da produção e dos preços devido à desvalorização do real em relação ao dólar.
Milho: importante para cadeias de alimentos e para fabricação de ração animal, a receita dos produtores de milho crescerá ~13,5% em 2020, in?uenciado pelo aumento dos preços em reais devido a forte demanda interna e externa.
Arroz: os produtores estão se bene?ciando da alta demanda do mercado doméstico com aumento de preços de algumas marcas do quilo de 10% a 40%, de acordo com o site especializado no setor Planeta Arroz.
Algodão: o VBP da produção de algodão deverá ter uma queda acima do projetado para 2020 pelo MAPA, -2,6%. O cenário ruim para o setor está relacionado com a queda da demanda nacional e mundial por tecidos.
Cana de açúcar: com a maior produção da história, 674,3 milhões de tons (+1,0% s/ 19), o setor vive uma situação dramática devido a queda do consumo do açúcar e do etanol no mercado doméstico e mundial. As usinas que estão no auge da moagem possui elevado endividamento bancário, o que afeta a liquidez ?nanceira.
Laranja indústria: a produção de laranja para 2020, de acordo com o LSPA/IBGE, crescerá 4,3% em relação ao anterior (18,4 milhões de tons.), porém, o mercado doméstico e internacional deverá ter baixa demanda causando queda dos preços.
Produtores de leite: com di?culdades pontuais de logística e aumento do consumo, os produtores de leite deverão ter aumento das receitas em 2020. De acordo com o CEPEA, a disputa entre indústrias para assegurar a compra de leite no campo vem sustentando as cotações ao produtor.
Suíno: a demanda por suínos segue ?rme devido às compras externas. De acordo com o MAPA, o VBP da suinocultura será 24% superior ao de 2019, atingindo R$21,4 bilhões.
Bovino: mesmo com a redução das compras dos fast foods e restaurantes, as vendas deverão seguir resilientes devido à demanda externa da China e mais países que estão abrindo seus mercados para a carne brasileira. O VBP divulgado pelo MAPA prevê crescimento de 12,4% em 2020 frente à 2019 (R$99,6 bilhões).
Fonte: Min. da Agricultura, CEPEA, CONAB e IBGE (LSPA). Elaboração da TCP Partners.

Highlights dos subsetores secundários

Algodoeiras: devido a elevada necessidade de caixa para aquisições do algodão em caroço, a TCP Partners avalia que as algodoeiras passarão por estresse ?nanceiro devido às restrições de crédito pelos bancos e queda do consumo e dos preços no mercado doméstico e internacional.
Usinas de açúcar e álcool: a TCP Partners acredita que as usinas serão duramente afetadas devido à queda dos preços do açúcar e do etanol. É um dos setores com mais probabilidade de default e recuperações judiciais.
Frigorí?cos: o time de economia da TCP avalia que os frigorí?cos terão maior resiliência à crise, mas preocupa-se com os pequenos e médios devido às restrições de crédito. A resiliência está correlacionada com a demanda internacional por proteína ao longo dos próximos trimestres.
Fabricantes de implementos: com agricultores mais conservadores com o caixa, a equipe da TCP manifesta preocupação com os fabricantes de implementos, principalmente com a escassez de crédito para o segmento.
Máquinas agrícolas: seguindo a lógica do segmento de implementos agrícolas, espera se que os fabricantes de máquinas agrícolas tenham baixa procura devido a conservação de caixa dos produtores agrícolas.
Processadoras de grãos: a maior parte das processadoras de grãos necessitam de linhas de crédito para manter suas operações. O time de economia avalia que o setor deverá ter problemas pontuais de crédito, mas ao mesmo tempo terão demanda interna e externa.
Fertilizantes e Defensivos agrícolas: as indústrias do setor deverão manter-se resilientes, pois são itens indispensáveis para a produção. O time de economia da TCP observa que deverá ocorrer aumento de preços devido à desvalorização do real em relação ao dólar, uma vez que os preços dos componentes são dolarizados.
Nutrição animal: as companhias do setor serão resilientes devido a demanda ?rme por proteínas (bovinas, suínas e de aves), principalmente, pelo mercado internacional. A equipe da TCP ressalta que deverá ocorrer aumento dos preços dos insumos, como o milho, núcleos e minerais.
Fabricantes de sementes: preocupa- se também a disponibilidade de crédito para as sementeiras que dependem de linhas, principalmente, capital de giro para aquisições de sementes e insumos.
Medicamentos veterinários: o setor de medicamentos deverá ter impactos nas exportações, porém, a TCP analisa que o mercado interno deverá seguir ?rme com aquisições para garantir e?ciência da produção bovina, suína e de aves.

Highlights dos subsetores terciários

Concessionárias de máquinas agrícolas: a TCP espera que deverá ocorrer aumento da inadimplência por produtores médios, restrição de ?nanciamentos e, devido ao conservadorismo dos produtores, redução nas vendas. É um setor com alta probabilidade de default.
Transportadoras de cargas: o segmento de transportes de grãos está resiliente devido a safra recorde, já o segmento relacionado à pecuária que abastece o mercado doméstico deverá ter sua atividade impactada devido à redução do consumo interno.
Serviços ?nanceiros: às instituições ?nanceiras privadas que atuam no setor agropecuário fomentando crédito e seguros reduziram sua exposição, principalmente, devido a insegurança jurídica e riscos de recuperações judiciais de produtores. O setor privado é responsável por ~60% do crédito do setor. Portanto, espera maior atuação das instituições ?nanceiras públicas para suprir a liquidez do setor e mudanças jurídicas que reduzem a aversão do setor privado.
Armazenagem: o crescimento da produção de grãos e a estratégia dos produtores e tradings de armazenar para obter melhores preços vai garantir ao setor de armazenagem atrativa performance ?nanceira. Esse segmento é considerado estratégico pela equipe da TCP devido à procura externa de grãos pelos países impactados pela pandemia.
Revendas de insumos agropecuários: as revendedoras devem manter-se atentas aos riscos de inadimplência dos produtores e fortalecer o caixa para suportar redução de liquidez bancária. Mesmo sendo fundamental para fomentar a nova safra, a TCP observa riscos ?nanceiros.
Revendas de peças agrícolas: os atacadistas e varejistas de peças agrícolas deverão ter uma ano de crescimento das vendas devido a aversão de compra de máquinas novas (tratores, colheitadeiras e pulverizadores motorizados) pelos produtores que deverão preservar caixa. A equipe de economia da TCP espera que os produtores decidirão pela manutenção da frota atual o que favorecerá as vendas de peças de reposição.

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