Elas entram em campo.

Nos últimos anos, tem ocorrido um movimento interessante no agronegócio, com uma entrada significativa das mulheres neste setor comumente dominado pelos homens. Alguns números comprovam isso. Uma pesquisa realizada no ano passado pela Ideagri em sua cartela de clientes constatou que entre as 90 fazendas de leite que se classificaram com a melhor pontuação na terceira edição do Índice Ideagri do Leite Brasileiro, publicado em setembro 2019, 30% são geridas por mulheres ou contam com mulheres em papéis relevantes na administração ou assistência técnica.

“A presença feminina no trabalho das fazendas, em nossa carteira de clientes, como usuárias do sistema, bem como em cursos, leilões, feiras e eventos do setor é cada vez mais significativa”, diz Heloise Duarte, CEO da Ideagri, citando, por exemplo, que a proporção de graduadas nos cursos relacionados ao agronegócio tem se igualado e até mesmo superado a de homens.

Mulheres ainda precisam provar a competência

Atuando em um setor tão tradicional como o agronegócio, Flávia Fontes, editora da revista Leite Integral, conta que seus maiores desafios na carreira sempre foram mostrar que era capaz de fazer o que se propunha, tanto como consultora quanto como empresária. “As mulheres ainda precisam provar seu valor. Não basta serem competentes. Parece que isso está mudando, mas ainda há um longo caminho, infelizmente.”

Ela se recorda de uma fazenda em que atuava como consultora e era a única mulher, todos os outros funcionários eram homens e existia uma grande dificuldade de fazê-los cumprir suas determinações técnicas. “Não entendia o porquê. Até que um dia alguém me explicou que naquela região existia um grande machismo, e que era demonstração de fraqueza “obedecer” a uma mulher. Mas, não desisti. Mostrei a importância daquilo que eu estava propondo e os venci pelos resultados do trabalho.”

Quem também observa um avanço na participação da mulher no agronegócio é Bruna Leonel, coordenadora da Cooperativa Central dos Produtores Rurais de Minas Gerais, entidade que detêm 50% da Itambé. Ela credita isso à quebra de paradigmas que tem acontecido no meio rural e a demandas do próprio mercado, que exige hoje habilidades que não exigia antes. “Isso tem feito com que todo mundo tenha que sair do lugar. São habilidades que, em tese, são mais comuns às mulheres, como facilidade de comunicação, flexibilidade, conexão com as pessoas. As características que o mercado pede têm aberto mais espaço para as mulheres”, afirma.

Mesmo diante de mudanças ainda lentas, Bruna acredita que o mais importante são as características de cada um e alerta para a necessidade de estar sempre em um processo contínuo de melhora e aprendizado. “Precisamos aprender a lidar com isso com graça e leveza porque o mundo pede isso, a pressão é muito grande, as mudanças são muito rápidas. Isso requer que a gente se reinvente o tempo inteiro. Eu nunca deixei que isso me limitasse ou isso me impulsionasse. É o tipo de coisa que tento passar por cima. Se a gente conseguir olhar as nossas fragilidades e trabalhar o que for preciso, todo mundo tem oportunidade de ir muito longe.”

Quem também buscou na qualificação a arma para driblar essa desconfiança foi Sandra Gesteira, professora da Escola de Veterinária da UFMG. “Após terminar o mestrado, eu tinha uma qualificação acima dos veterinários que estavam no campo e isso fazia com que os produtores perdessem esse preconceito”, revela. Ela conta que após tantos anos na atividade profissional, os desafios são pequenos por ser mulher, embora, muitas vezes, ainda perceba um olhar diferente em alguns criadores, como se não acreditassem na capacidade em um primeiro momento.

“Mas como eu já estou há muito tempo neste negócio, fica mais fácil para mim. Quando eu me formei, em 1982, era bem mais difícil. Então você imagina como era essa questão de preconceito. Nossa sociedade ainda olha diferente para essas profissões ditas masculinas. Mesmo as empresas, que muitas vezes deixam de contratar uma profissional recém-formada porque ela logo pode estar gestante e isso pode trazer algum problema para elas.”

O foco no trabalho e na gestão também é a filosofia de Huguette Guarani, proprietária da fazenda São João True Type. Ela conta que não se recorda de ter enfrentado nenhum problema para tocar a fazenda pelo fato de ser mulher, no entanto, passou por dificuldades comuns a qualquer pessoa quando começa um negócio, como dificuldade de encontrar mão de obra qualificada, pouco dinheiro, dentre outras.

O maior desafio enfrentado, segundo ela, foi ter que tocar o projeto no início com os filhos ainda pequenos. “Muitas vezes tive que levá-los a reuniões, interromper reunião para amamentar. Mas esse não é um desafio inerente à atividade rural, ele existiria em qualquer setor. Eu não sei se dei sorte, se é questão do meu modelo de gestão, mas eu não vivo essa dificuldade tão aparente que muitas pessoas enfatizam.”

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